Biblioteca da Faculdade de Letras
Blog da Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de LisboaArquivo para Março 13, 2008
Línguas africanas na FLUL
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Duas observações preliminares: Em primeiro lugar, a linguística africana, propriamente dita, não existe. Existe sim a linguística que estuda a faculdade de linguagem humana. Qualquer que seja a língua utilizada. E, em segundo lugar, falar de línguas africanas é falar de uma classificação geográfica e não linguística.
Entendamo-nos: O que são as línguas africanas? Ao dizermos que são “as línguas faladas em África” não estamos a responder porque várias línguas europeias, como o africânder, o francês, o inglês e o português da família indo-europeia, ou línguas como as de Madagáscar que pertencem à família austronésia, também faladas em África.
O critério mais geralmente aceite é o de considerar como línguas africanas as línguas faladas pela população autóctone, excluindo as línguas de implantação recente no continente. Deste modo, o africânder, cuja origem é o holandês do século XVII, ficará excluído, mas o árabe, cuja existência no Norte de África data do século VII será incluído. Resta contudo o problema da classificação de línguas francas de formação recente.
Digamos que, historicamente, o termo se refere às línguas faladas na África sub-sahariana, e que não pertencem todas à mesma família.
Este trabalho consiste numa breve apresentação das diferentes famílias de línguas africanas e numa introdução ao estudo de duas componentes linguísticas: Fonologia e Morfologia. Não se trata, portanto, de um manual, mas tão só da apresentação de alguns problemas complementada por uma bibliografia que poderá servir de base para um estudo mais aprofundado dos aspectos abordados”.
Ernesto d’Andrade
NOTA BIOGRÁFICA DO AUTOR:
Ernesto d’Andrade, Doutor em Linguística Geral, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Estudou suaíli, mandinga e serbo-croata na Escola das Línguas Orientais, em Paris.
Leccionou vários Seminários de Linguística, sobretudo de Fonologia, na Universidade Eduardo Mondlane.
Membro do júri de várias dissertações de Licenciatura na Universidade Eduardo Mondlane.
Representante do Departamento de Linguística Geral e Românica na Comissão Coordenadora da Licenciatura em Estudos Africanos da Faculdade de Letras.
Professor de “Introdução à Linguística Africana” da Licenciatura em Estudos Africanos da Faculdade de Letras de Lisboa.
Publicações:
1975 - “Ordem das Regras Fonológicas em Línguas de Angola e Moçambique”. Boletim de Filologia, XXIV, pp. 13-32.
1992 - Actas do Colóquio sobre “Crioulos de base lexical portuguesa. (org. com Alain Kihm). Lisboa : Edições Colibri
1993 – Dicionário Inverso do Português. , Lisboa : Edições Cosmos
2000 - Crioulos de Base Portuguesa, (org. com M. A. Mota e D. Pereira). Lisboa : A.P.L.
2000 - The Phonology of Portuguese. Mateus, M. Helena e E. d’Andrade. Oxford : Oxford University Press
2007 – Línguas Africanas – Breve Introdução à Fonologia e à Morfologia. Santo António dos Cavaleiros : A. Santos.
2007 – Histórias de Palavras: do Indo-Europeu ao Português. Santo António dos Cavaleiros : A. Santos.
Portugal e a Colónia do Sacramento
“Nos primeiros anos do século XVI, Portugal e Castela procuraram instalar-se na bacia platina. Após a viagem de Fernão de Magalhães e Sebastião de Elcano, a presença castelhana neste espaço sul-americano continuou a sedimentar-se, ao mesmo tempo que França aumentou a sua presença. As explorações efectuadas no rio da Prata pelos espanhóis incomodavam o monarca português.
Para vincar a posição portuguesa, o soberano português mandou Martim Afonso de Sousa (1530) reconhecer o litoral do Amazonas ao Prata. Em 1531, Pêro Lopes de Sousa destacou-se da armada de Martim Afonso de Sousa e foi colocar dois padrões no baixo Paraná. Tal atitude não agradou a Espanha que, através do seu embaixador em Lisboa, protestou contra a viagem de Martim Afonso de Sousa ao rio de Santa Maria, depois denominado da Prata.
O aparecimento de informações que indicavam que naquelas zonas havia metais preciosos agravou a disputa pela posse deste território entre Portugal e Castela. Em 1580, ocorreu a segunda fundação de Buenos Aires. Esta ocorrência facilitava o estabelecimento de uma via comercial entre o Alto Peru e a Espanha.
Na sequência do tratado de paz assinado em Madrid, em 14 de Fevereiro de 1668, a Coroa portuguesa renovou os seus interesses em estender as fronteiras meridionais do Brasil até ao rio da Prata. Para o efeito, ordenou ao governador e capitão-mor do Rio de Janeiro, D. Manuel Lobo que fundasse uma capitania na margem esquerda daquele rio. A expedição de D. Manuel Lobo partiu de Santos, em finais de 1679, alcançando a bacia do Prata em Janeiro de 1680, onde iniciou a edificação de uma fortificação, mesmo em frente de Buenos Aires.
A participação de Portugal na Guerra da Sucessão de Espanha, ao lado do arquiduque Carlos da Áustria reflectiu-se de imediato aqui. A colónia esteve cercada por um exército hispano-guarani durante cinco meses (1704-1705). Pelo Tratado de Utreque (6 de Fevereiro de 1715), Espanha reconheceu os direitos de Portugal sobre a colónia do Sacramento.
Predominava cada vez mais junto de alguns conselheiros (v. g., D. Luís da Cunha) do monarca português o sentimento de que era necessário encontrar uma solução negociada com Espanha para o problema da colónia do Sacramento. Após a morte de Filipe V, em 1746, iniciaram-se as conversações que levariam ao Tratado de Madrid (13 de Janeiro de 1750), onde se reconhecia que os princípios de Tordesilhas não tinham consistência. As “fronteiras naturais” e o princípio do uti possidetis (ocupação efectiva) passaram a ser os princípios definidores da posse destes territórios. Portugal cedia a colónia mas, em compensação, recebia o território dos Sete Povos das Missões, na margem esquerda do rio Uruguai. Esta solução não agradou aos índios dos Sete Povos, dando origem à Guerra Guaranítica (1753-1756). A não observação desta cláusula, teve como consequência a suspensão da entrega da colónia do Sacramento.
Por esta razão, o tratado de Madrid foi revogado e, em 1761, foi assinado o Tratado do Pardo. Este tratado também não teve efeitos práticos já que em 1762, Portugal e Espanha envolveram-se na Guerra dos Sete Anos. De imediato, D. Pedro de Cevallos, governador de Buenos Aires, comandando um exército franco-espanhol atacou e conquistou a colónia do Sacramento, bem como os fortes da região de Castilhos, a vila de Rio Grande, e a margem norte do canal de acesso à lagoa dos Patos.
Em 1763 foi assinado o Tratado de Paris que punha fim às hostilidades da Guerra dos Sete Anos. Na sequência deste tratado mandava-se restituir as terras conquistadas. Porém, Espanha fazendo uma interpretação própria desta recomendação, devolveu a Colónia mas negou-se a entregar as posições ocupadas no Rio Grande. Daí que os conflitos tivessem continuado nesta região, e entre 1767-1776 os portugueses conseguiram recuperar as posições riograndeses outrora sob a sua posse. Por sua vez, o comércio clandestino continuava a prosperar na colónia do Sacramento. Esta situação (derrota no Rio Grande e comércio clandestino) continuava a incomodar D. Pedro de Cevallos que organizou uma nova expedição e atacou a ilha de Santa Catarina e forçou à rendição da colónia do Sacramento (1777).
Entretanto, morreu D. José I, sucedendo-lhe D. Maria I, o que levou à conciliação dos dois reinos peninsulares. Por isso, foi assinado o Tratado de Santo Ildefonso (1777), onde a Espanha restituiu a Portugal a ilha de Santa Catarina. Por outro lado, Portugal reconheceu a Espanha o direito sobre a colónia do Sacramento e os Sete Povos das Missões”
João Cosme

